Teletrabalho na Gestão Pública e Fragmentação da Informação: Um Estudo de Caso da FAPEAL no Contexto Pandémico e Pós-Pandémico

Autores

Palavras-chave:

Teletrabalho, Gestão da informação, Fragmentação informacional, Administração pública

Resumo

A pandemia de COVID-19 provocou uma reconfiguração abrupta das dinâmicas laborais no setor público brasileiro, impondo a adoção do teletrabalho como medida emergencial para garantir a continuidade administrativa e preservar a saúde coletiva. Essa transformação implicou desafios estruturais relevantes, sobretudo no que diz respeito à organização da informação e à manutenção da coerência informacional entre setores, equipes e sistemas. O presente estudo tem como objetivo analisar os impactos do teletrabalho na gestão da informação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (FAPEAL), com foco na fragmentação da informação e nas estratégias institucionais adotadas para enfrentá-la no contexto pós-pandêmico.

A pesquisa está ancorada nos campos da Ciência da Informação e da Administração Pública, adotando uma abordagem qualitativa de estudo de caso. A metodologia envolve análise documental, entrevistas semiestruturadas com gestores e servidores, e revisão das normas internas relativas à gestão informacional. A pergunta norteadora é: como a implementação do teletrabalho na FAPEAL afetou o fluxo, a organização e a integridade da informação institucional no contexto pós-pandêmico?

O referencial teórico baseia-se em autores clássicos da gestão da informação e do conhecimento. Choo (2003) compreende as organizações como sistemas que constroem sentido, sendo a informação elemento estruturante para sua estabilidade, mesmo em ambientes disruptivos. No entanto, o teletrabalho enfraquece interações informais, trocas tácitas e a memória coletiva institucional. Para Davenport e Prusak (2003), a informação requer validação social e organização intencional para se transformar em conhecimento. Na ausência de mecanismos formais e compartilhados, o teletrabalho pode acentuar ecossistemas informacionais fragmentados, dificultando decisões, repetindo tarefas e comprometendo a transparência.

Esse cenário é especialmente crítico em instituições públicas, cuja missão exige integridade documental, rastreabilidade e coerência nos fluxos informacionais. Como apontam Valentim (2014) e Silva et al. (2023), a gestão da informação pública demanda não apenas infraestrutura tecnológica, mas também políticas de informação, padrões de metadados e processos de governança informacional integrados ao planejamento institucional.

O caso da FAPEAL oferece um campo empírico relevante para análise. Como agência de fomento à ciência e tecnologia no Estado de Alagoas, a fundação teve que reorganizar rapidamente seus processos quando o teletrabalho foi instituído em 2020. Embora plataformas digitais como e-mails, videoconferência e compartilhamento em nuvem tenham garantido a continuidade mínima das atividades, avaliações internas e relatos qualitativos apontaram fragilidades relacionadas à redundância de arquivos, dificuldades de versionamento, sobrecarga de informações e indefinições sobre fluxos de responsabilidade.

A pesquisa identificou três tipos principais de fragmentação informacional na FAPEAL durante o período de 2020 a 2021: (1) fragmentação espacial, devido à dispersão de documentos entre dispositivos pessoais, e-mails e pastas locais; (2) fragmentação semântica, decorrente da ausência de padronização terminológica e de metadados entre setores; e (3) fragmentação processual, associada a diferentes interpretações de rotinas, prazos e responsabilidades.

Em resposta a essas fragilidades, a instituição promoveu, a partir de 2022, um conjunto de medidas com vistas à modernização da gestão da informação: regulamentação interna de fluxos informacionais; implantação de um sistema de Gestão Eletrônica de Documentos (GED); capacitações em ferramentas colaborativas; e reformulação de protocolos de coordenação, com vistas à clarificação das linhas de comunicação. O Programa de Capacitação e Qualificação Profissional (PACQUALI), anteriormente focado em formação técnica, foi ampliado para contemplar competências informacionais e práticas colaborativas compatíveis com ambientes híbridos.

As entrevistas com os servidores indicam avanços significativos na organização das rotinas e maior clareza nos processos de tratamento e circulação da informação. Ainda assim, permanecem desafios relevantes relacionados à mudança cultural. Muitos entrevistados apontaram a persistência de redes informais de comunicação, a resistência ao uso de sistemas institucionais e a percepção de que práticas documentais são excessivamente burocráticas.

Os resultados também indicam que a fragmentação da informação não é apenas um problema técnico, mas um fenômeno sociotécnico. Envolve interações entre tecnologias, práticas humanas e cultura organizacional. Portanto, enfrentá-la exige mais do que ferramentas digitais: requer a consolidação de uma cultura institucional que valorize o registro, a integridade informacional e a memória organizacional. A literatura da Ciência da Informação reforça que o aprendizado organizacional só se sustenta quando há registro, validação e acesso coletivo ao conhecimento (Nonaka & Takeuchi, 1997; Senge, 2006).

Uma lição central extraída da experiência da FAPEAL é a necessidade de equilibrar flexibilidade operacional e padronização informacional. O teletrabalho requer estruturas adaptativas, mas não prescinde de normas claras para armazenamento, acesso e atualização de documentos e dados institucionais. O modelo híbrido, que combina flexibilidade com momentos presenciais de integração, surge como alternativa viável para manter a coesão informacional e o engajamento institucional.

Outro achado importante refere-se ao papel estratégico dos profissionais da informação no setor público. Esses agentes atuam como mediadores entre sistemas e usuários, sendo fundamentais para a implementação de políticas de governança informacional, formação digital e controle de qualidade documental. Seu envolvimento direto nas decisões estratégicas é essencial para reduzir a fragmentação e fortalecer a gestão do conhecimento institucional.

Conclui-se que o teletrabalho pode, se bem gerido, trazer ganhos reais à administração pública, como aumento da eficiência, da autonomia e da qualidade de vida dos servidores. No entanto, sua sustentabilidade depende da adoção de estratégias robustas de gestão da informação e da valorização da cultura de registro, interoperabilidade e memória organizacional. A experiência da FAPEAL evidencia que os investimentos em infraestrutura tecnológica devem ser acompanhados de investimentos em pessoas, processos e políticas de informação.

Do ponto de vista das políticas públicas, os resultados da pesquisa sustentam a recomendação de institucionalização dos modelos híbridos de trabalho no setor público, acompanhados por marcos normativos de governança informacional. Tais marcos devem prever padrões mínimos de documentação, auditorias informacionais periódicas, protocolos de compartilhamento de conhecimento entre equipes e ações sistemáticas de desenvolvimento de competências digitais.

Em síntese, este estudo contribui para os debates emergentes sobre teletrabalho, gestão da informação e inovação pública, oferecendo evidências empíricas e fundamentação teórica para compreender os efeitos da fragmentação informacional e as possibilidades de sua superação. O caso da FAPEAL revela os riscos, mas também as oportunidades, de construir uma infraestrutura de conhecimento capaz de sustentar o valor público em um cenário administrativo em transformação.

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Publicado

2025-11-10

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Artigos