É possível pensar no Mundo 3 para a ciência da informação?
Uma perspectiva crítica
DOI:
https://doi.org/10.34630/xiedicic.vi.6770Palavras-chave:
Epistemologia da ciência da informação, Popper, Conhecimento objetivo, Problema mente-corpo, RortyResumo
A ciência da informação, como disciplina com pretensões de cientificidade, tem promovido diversos debates sobre seu status cognitivo (Ávila Araújo, 2024; Columbié, 2021; Bates, et al., 2021). Na atualidade, essas discussões se tornam imprescindíveis para compreender o papel que a disciplina deve desempenhar. Alguns desses debates têm sido articulados sob a perspectiva epistemológica de Karl Popper, particularmente a teoria dos três mundos. Em sua obra Conhecimento objetivo: uma abordagem evolucionista (1992), com a pretensão de escapar ao dualismo mente-corpo e oferecer uma reconstrução mais adequada dos processos mentais, do conhecimento e da relação com o mundo exterior, Popper divide o mundo em três categorias: Mundo 1, que compreende o mundo dos objetos; Mundo 2, onde ocorrem os processos mentais e experiências; e Mundo 3, onde se encontra o conhecimento objetivo. É neste marco que, desde a ciência da informação, identificou-se rapidamente a possibilidade de fundamentar a disciplina no Mundo 3, uma vez que a informação, como objeto de estudo, é uma entidade presente nesse mundo.
Diversos autores caracterizaram essa perspectiva para oferecer uma fundamentação à área. Swanson (1979), ao analisar a relação entre as bibliotecas e o conhecimento, considera que a prática científica consiste na resolução de problemas por meio de tentativa e erro. Ressalta que é necessário realizar uma crítica e resolver problemas relacionados aos serviços bibliotecários que contribuam para o avanço do conhecimento. Menciona que a atividade dos cientistas gera obras que contribuem para o Mundo 3 e que a biblioteconomia deve compreender os problemas subjacentes à produção dessas obras.
Por outro lado, Bertram Brookes (1980), ao estudar os aspectos filosóficos do campo, observa que uma forma de delimitá-lo é proclamar como próprio o mundo do conhecimento objetivo ou Mundo 3, já que nenhuma outra disciplina o reivindicou como seu. A tarefa disciplinar é explorar esse mundo, reunir e organizar seus registros. Sua proposta determina que a interação entre os Mundos 2 e 3 faz parte do domínio da ciência da informação. Essas contribuições representam um divisor de águas na análise dos fundamentos da área, pois não apenas postulam um domínio de trabalho objetivo, mas também tentam matematizar a interação entre os mundos a partir de sua equação fundamental.
Apesar disso, Neill (1982) considera que as contribuições da filosofia popperiana não se limitam a uma medição por meio de uma equação, mas que é necessário aprofundar o conceito de conhecimento objetivo, e que sua epistemologia é útil para fundamentar o campo. Assim como Swanson, enfatiza que é indispensável avançar na resolução de problemas informacionais. Acrescenta que o desenvolvimento da ciência da informação reside no problema e na solução de indexar e classificar o conhecimento do Mundo 3 e compreender os processos informacionais do Mundo 2.
Por outro lado, Rudd (1983) realiza uma crítica contundente à utilização do Mundo 3 popperiano, argumentando que essa noção não permite compreender o conteúdo e o contexto nos quais a informação é gerada. Esses aspectos, segundo ele, não contribuem para a consolidação da área como uma disciplina séria. Essas críticas, juntamente com a perspectiva de que não é possível identificar um mundo objetivo das ideias, se difundiram durante a década de 1990 e levaram a novos questionamentos, bem como à análise da informação e seus processos no âmbito de comunidades discursivas determinadas (Frohmann, 1992; Hjørland, 1992; Ingwersen, 1992).
Apesar dessas críticas, a ideia de que pode existir um mundo objetivo e de que a ciência da informação se ocupa de suas entidades permanece. Miranda (2002) afirma que a disciplina realiza seu trabalho com o conteúdo informacional do Mundo 3 e que se trata de uma ciência popperiana, pois deve estudar as entidades informacionais autônomas e objetivas. Recentemente, Gnoli (2018; 2019) analisa a ciência da informação a partir da teoria dos níveis da realidade e identifica o que denomina como mentefatos (entidades abstratas criadas pela mente) como elementos básicos para a disciplina. Considera que esse nível da realidade é assimilável ao Mundo 3. Matos (2022) examina a ideia do Mundo 3 e conclui que é possível identificá-lo com a cultura humana e com a informação compreendida como um processo evolutivo, sendo que o campo deve modelar e organizar a informação gerada.
Como se pode observar, grande parte das discussões epistemológicas se articulam em função da existência e da autonomia do Mundo 3. Deste modo, esta apresentação tem como objetivo discutir e criticar a noção do Mundo 3. Para isso, são introduzidas as críticas realizadas por Richard Rorty à filosofia moderna, especificamente aos problemas mente-corpo, à concepção do conhecimento como representação exata ou à existência do conhecimento objetivo. Em sua obra A Filosofia e o Espelho da Natureza (1995), Rorty ataca essas noções dualistas, por considerá-las divisões que não representam a realidade. Grande parte da obra gira em torno da crítica de que a mente não pode refletir corretamente a realidade. Embora Popper tente desvincular-se do dualismo mente-corpo, sua perspectiva sustenta que existe um mundo objetivo que deve ser captado pela mente dos sujeitos. Em contraposição, Rorty argumenta que o conhecimento refere-se a uma interação e consolidação entre os integrantes de uma comunidade, e que compreendemos o conhecimento quando entendemos a justificação social da crença e, portanto, não há necessidade de considerá-lo como precisão na representação (1995, p. 162). Assim, o conhecimento é um processo contingente e conversacional, e não um Mundo com entidades autônomas que são captadas pela mente. Rorty considera impossível que o conhecimento, e a mente como espelho, reflitam uma realidade ou mundo externo. Esses argumentos permitem compreender a atividade disciplinar e a informação centradas em um contexto social e o conhecimento como um exercício de conversação entre praticantes.
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