A PANDEMIA DA COVID-19 NO BRASIL
CRÔNICA DE UMA INFODEMIA ANUNCIADA
DOI:
https://doi.org/10.34630/xiedicic.vi.6709Palavras-chave:
infodemia, Desinformação, Pandemia COVID-19, Checagem de fatos, Regime de desinformaçãoResumo
Introdução: Em dezembro de 2022 foram confirmados 693.853 óbitos relacionados à pandemia da COVID-19 no Brasil (MS, 2025). A infodemia da COVID-19 não apenas provocou uma crise de confiança nas instituições brasileiras e insegurança na população, como dificultou a articulação da resposta à pandemia, a qual foi tratada como uma questão política por um governo federal de extrema-direita. Compreender a dinâmica da circulação da desinformação contribui para traçar estratégias de ação para o enfrentamento de situações semelhantes no futuro. O objetivo da pesquisa é compreender a dinâmica da infodemia da COVID-19 no Brasil a partir das peças de desinformação tratadas pelas agências brasileiras de fact-checking Aos fatos e Lupa no período compreendido entre janeiro de 2020 a julho de 2022. Referencial teórico: O termo desinformação (disinformation) confunde-se com os termos fake news e misinformation, revelando seu caráter polissêmico. A principal diferença está no caráter intencional de enganar ou confundir (Bennett & Livingston, 2018), de provocar dano (Wardle, 2020; Dourado, 2021). Desta maneira seus objetivos políticos ajudam a diferenciá-la dos demais termos (Segurado, 2021). Wardle (2020) aponta sete tipos de desinformação que variam em graus de severidade e esforço em relação à intenção de provocar dano. Dourado (2021) destaca a importância de compreender a cadeia de transmissão coletiva da desinformação e seu forte apelo político e afetivo. A autora aponta a possibilidade de verificação dos fatos como um elemento de vulnerabilidade ou fragilidade, porque permite expor o desmentido. A infodemia é definida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como a superabundância de informações que ocorre durante uma epidemia e se dissemina por meio de sistemas de informação, podendo gerar confusões, desinformações e crise de desconfiança nas políticas públicas de saúde (WHO, 2020). No caso da infodemia associada à COVID-19, a UNESCO propôs a classificação das peças de desinformação em nove temas: origens e propagação da COVID-19; estatísticas falsas e equivocadas; impactos econômicos; descrédito de jornalistas e veículos de notícias fidedignos; ciência médica (sintomas, diagnóstico e tratamento); Impactos na sociedade e no meio ambiente; politização; ganho impulsionado para ganho financeiro fraudulento; e desinformação cujo foco são as celebridades (Posetti; Bontcheva, 2020). Um breve histórico da infodemia da COVID-19 no Brasil: A pandemia, a nível global e local, foi acompanhada de uma infodemia. No Brasil ela “se materializava na enxurrada de desinformação, tendo como importante polo emissor o governo federal” (Segurado, 2021, pp.16). Dentre várias situações, quatro ilustram o quadro de disputa de políticas e de narrativas que se instaurou no país: a discussão sobre a necessidade de isolamento social e do uso de máscaras; a utilização da cloroquina e outros medicamentos para prevenir ou tratar a doença; a produção de vacinas e sua eficária frente à alternativa de alcançar a imunidade de rebanho; e a crise sanitária de Manuaus (Amazonas) quando faltou oxigênio para os pacientes (MS, 2020b; Brasil, 2020; Brasil, 2020; Shalders, 2020; Segurado, 2021). Procedimentos Metodológicos: A pesquisa é exploratória, com abordagem quali-quantitativa. A coleta de dados ocorreu em março de 2023, junto ao site das agências de checagem de fatos Aos fatos e Lupa, vinculadas à International Fact-Checking Network (IFCN). Foram eliminadas as notícias falsas duplicadas e as que estavam não estavam em português. Foram identificadas, respectivamente, 789 e 405 peças de desinformação nas agências Lupa e Aos Fatos, totalizando 1.194. A seguir foi feita a leitura e classificação do material com base na divisão temática da Unesco. Foi utilizada a estatística descritiva e a análise crítica para a análise e interpretação dos dados. Resultados: O maior volume de peças de desinformação verificadas ocorreu no primeiro ano da pandemia. Observa-se que os três temas com maior número de peças de desinformação dizem respeito à Ciência médica (sintomas, diagnóstico e tratamento), seguida pela politização e pelo uso de estatísticas falsas e enganosas. Na temática Ciência médica incluem-se peças associadas às vacinas, ao diagnóstico, à prevenção e ao tratamento da doença. A Politização agrupou peças que promoviam o descrédito do STF e de políticos. Destacam-se as peças de desinformação direcionadas a prejudicar a imagem do governador de São Paulo ou de suas ações de enfrentamento à pandemia (como a produção da vacina Coronavac em parceria com a biofarmacêutica chinesa Sinovac) , tornando-o um dos alvos da campanha de desinformação (Dias, 2020; Segurado, 2021). Na temática de estatísticas falsas e enganosas as peças questionam o número de óbitos / internações. Algumas acompanharam a estratégia presidencial de negá-los ou de sugerir que estavam inflados para favorecer interesses políticos de alguns governantes (Segurado 2021). A análise da circulação das peças de desinformação reiterou a divisão temática da Unesco que orientou a análise deste estudo. Considerações finais: Os resultados da pesquisa acerca do volume e da classificação das peças de desinformação sugerem uma campanha de desinformação com um certo grau de sincronia com o que era pautado pelo governo federal. Entende-se que a pesquisa permitiu identificar elementos que ilustram o quadro de disputa de políticas e de narrativas sobre a pandemia que se instaurou no país e que gerou um ambiente de desconfiança na população. Também permitiu compreender a dinâmica da circulação e da desinformação e, assim, identificar elementos que possam subsidiarestratégias de ação para o enfrentamento de situações semelhantes no futuro. Através do conceito de regime de informação pode-se compreender como o poder é exercido em e através das relações sociais mediadas pela informação e, no caso da infodemia da COVID-19, isso afeta a discussão da política de informação sobre saúde e limita a participação e compreensão do cidadão e seu direito à participação ativa nas discussões relacionadas às políticas públicas.
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