TRAJETÓRIA CIENTÍFICA DA EDUCAÇÃO BIBLIOTECOLÓGICA EM CUBA: CARACTERIZAÇÃO A PARTIR DO SCOPUS
DOI:
https://doi.org/10.34630/xiedicic.vi.6864Palavras-chave:
produção científica, Biblioteconomia, Biblioteconomia e Ciência da Informação, CubaResumo
A presente comunicação inscreve-se no esforço de visibilizar e compreender o desenvolvimento científico da educação biblioteconômica em Cuba, por meio da análise de sua produção acadêmica registrada na base de dados Scopus. Em um contexto em que a circulação do conhecimento, sua indexação e visibilidade internacional tornaram-se parâmetros dominantes para avaliar a maturidade dos campos disciplinares, torna-se necessário interrogar os modos pelos quais a ciência cubana se insere nesses circuitos de reconhecimento global, particularmente em uma área como a biblioteconomia, caracterizada por sua hibridação teórico-metodológica e vocação social.
A educação biblioteconômica em Cuba possui uma trajetória institucional que remonta à metade do século XX, inicialmente vinculada a modelos formativos de natureza técnica e, posteriormente, a processos de profissionalização universitária. A Universidade de Havana, por meio de sua Faculdade de Comunicação e do Departamento de Ciências da Informação, tem sido o principal espaço de articulação acadêmica e científica na área. Apesar dessa continuidade institucional, o exame sistemático de sua produção científica a partir de plataformas bibliométricas internacionais tem sido escassamente desenvolvido, o que constitui uma lacuna no conhecimento sobre as formas pelas quais o saber biblioteconômico cubano é construído, legitimado e projetado na esfera internacional.
Este estudo tem como objetivo caracterizar a produção científica cubana no campo da educação biblioteconômica a partir dos documentos indexados na Scopus, considerando indicadores como a evolução temporal das publicações, os autores mais produtivos, as instituições de afiliação, os periódicos selecionados, os idiomas de publicação e as principais temáticas abordadas. Essa cartografia do conhecimento não apenas oferece uma visão quantitativa, como também possibilita uma interpretação crítica das lógicas de visibilidade, das hierarquias do saber e dos mecanismos de inclusão/exclusão que operam nos sistemas internacionais de avaliação científica.
A metodologia adotada inscreve-se no campo da bibliometria, com uma abordagem descritiva que reconhece tanto o valor informativo dos indicadores quanto suas limitações em captar a complexidade dos processos acadêmicos em contextos periféricos. A busca foi realizada mediante termos-chave em três idiomas, filtrando por afiliação institucional cubana e por áreas temáticas relacionadas à educação, biblioteconomia e ciência da informação. Selecionou-se o período entre os anos 2000 e 2024, com o objetivo de captar uma série histórica suficiente que permita observar tendências sustentadas e rupturas significativas.
Os resultados revelam uma produção moderada, com picos de maior produtividade em determinados períodos coincidentes com eventos acadêmicos regionais ou chamadas editoriais internacionais. Observa-se uma concentração institucional em torno da Universidade de Havana, embora também haja contribuições de outras universidades provinciais e centros de pesquisa. Em termos de autoria, destacam-se pesquisadores com trajetória consolidada, cujas publicações lograram articular continuidade temática com abertura a novas linhas de investigação.
Um dos achados mais relevantes é a persistência de uma matriz temática centrada na formação por competências, na alfabetização informacional, na gestão do conhecimento em ambientes educacionais e na aplicação de tecnologias digitais. Essa focalização responde a necessidades concretas do sistema educacional cubano e, ao mesmo tempo, dialoga com debates internacionais sobre renovação curricular, inclusão digital e mediação pedagógica. Também se identificam estudos sobre desenvolvimento de coleções, comportamento informacional, preservação digital e avaliação de serviços bibliotecários, o que indica uma diversificação progressiva do campo.
No que diz respeito aos periódicos de publicação, observa-se uma preferência por revistas ibero-americanas indexadas na Scopus, especialmente do Brasil, Colômbia, Espanha e México. A presença em periódicos de língua inglesa é menor, o que evidencia certas barreiras linguísticas e editoriais à internacionalização. No entanto, a escolha de revistas em espanhol com ampla difusão regional permite estabelecer pontes com comunidades acadêmicas afins e reforçar a circulação de saberes no Sul Global. Em relação aos idiomas de publicação, o predomínio do espanhol é nítido, embora existam contribuições em inglês e português, sugerindo uma incipiente abertura multilíngue.
A colaboração internacional é limitada. Identificam-se coautorias com pesquisadores da América Latina e da Espanha, mas a articulação com redes globais permanece incipiente. Essa situação reflete tanto restrições materiais quanto lógicas de legitimação acadêmica que tendem a reproduzir desigualdades centro-periferia. Todavia, as experiências de colaboração regional evidenciam uma potencialidade que poderia ser explorada para fortalecer a presença internacional do campo biblioteconômico cubano.
A análise dos resultados permite também identificar certas tensões entre os marcos institucionais de formação e as expectativas de produção científica. A consolidação de linhas de pesquisa nem sempre se traduz em uma estratégia de publicação internacional sustentada, o que evidencia um descompasso entre a investigação como prática formativa e sua tradução em resultados publicáveis segundo critérios internacionais. Esse descompasso também pode ser interpretado como uma forma de resistência às lógicas hegemônicas da ciência global.
O contexto político cubano tem incidido de forma significativa nos processos de produção e socialização científica, afetando negativamente a visibilidade internacional do conhecimento gerado no país. As restrições à livre circulação de ideias, as limitações para estabelecer vínculos sustentados com redes acadêmicas estrangeiras e a concentração do controle editorial em instituições estatais têm restringido a diversidade e a competitividade do campo biblioteconômico. Além disso, a ausência de políticas estáveis de avaliação científica e o limitado acesso a recursos tecnológicos e financeiros aprofundaram a desconexão com os padrões internacionais. Em conjunto, essas condições estruturais contribuíram para o atraso relativo da pesquisa em biblioteconomia em Cuba, não por ausência de talento acadêmico, mas pelas barreiras sistêmicas que desestimulam a inovação e a colaboração global.
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