Literacia digital

Desafios e conquistas da comunidade sénior do município de Valongo

Autores

  • Alice Santos IPP
  • Inês Braga IPP

DOI:

https://doi.org/10.34630/xiedicic.vi.6750

Palavras-chave:

Literacia Digital, Seniores, Biblioteca Municipal de Valongo, Formação, Profissional da Informação

Resumo

A transformação digital tem vindo a alterar profundamente o modo de vida e de interação social, colocando novos desafios às comunidades mais vulneráveis, entre as quais, a população sénior, grupo geralmente afastado do universo tecnológico, correndo o risco de exclusão no acesso à informação, aos serviços públicos, à comunicação e à vida cívica, áreas essenciais para a sua integração na sociedade e para o exercício pleno de cidadania.

Como pressuposto desta investigação, está a ideia de que a baixa literacia digital na população sénior pode ser explicada através da combinação de fatores socioculturais, educacionais e emocionais, onde, por exemplo, a falta de oportunidades de formação ao longo da vida, o medo de errar no que respeita ao uso das novas tecnologias, ou mesmo as crenças culturais que associam a perda de capacidades ao envelhecimento natural dos indivíduos são fatores importantes (Bastos,2018, p. 72). Neste contexto, a biblioteca pública assume um papel crucial na mitigação da infoexclusão (Gómez-Hernández, 2002, pp. 229-237).

De acordo com a UNESCO (s.d), a literacia digital é entendida como a capacidade de aceder, gerir, compreender, integrar, comunicar, avaliar e criar informação de forma segura e adequada através de tecnologias digitais, algo essencial para acompanhar a evolução digital do séc. XXI. Perante o preocupante aumento da desinformação, sobretudo digital, a necessidade crescente de formação de indivíduos autónomos e com capacidade crítica no uso da informação, é cada vez mais premente.

Num contexto herdeiro da sociedade em rede (Castells, 1996, pp. 21-22) onde a informação circula em rede e em tempo real, a um ritmo e quantidades vertiginosos, ter literacia digital é fundamental para qualquer cidadão. O envelhecimento populacional, aliado à rápida evolução tecnológica, tem vindo a evidenciar um fosso geracional no acesso às TIC. Tal facto cria barreiras que dificultam a plena integração dos seniores na sociedade que se quer cada vez mais dinâmica e interventiva socialmente, pelo que importa trabalhar nessa área. De acordo com Bastos (2018, pp. 66, 72), a idade, o declínio cognitivo, o medo do erro e a falta de motivação estão entre os principais fatores que limitam a inclusão digital dos mais velhos.

Para dar resposta a este problema, as bibliotecas, como espaços abertos a todos os cidadãos, devem ser inclusivas, atrair públicos geralmente menos contemplados na sua ação, tais como os seniores, e dar resposta às suas necessidades, enfim, tal como afirmam Gomez-Hernández, (2002, pp. 229-231), não se devem preocupar só com os leitores reais, mas também com os potenciais.  É que, no contexto atual, as bibliotecas públicas, enquanto instituições formativas e democráticas, têm sido chamadas a assumir novas funções, nomeadamente a de espaços facilitadores da inclusão digital, onde o Profissional da Informação (PI) atua como mediador, educador e agente de transformação (Braga, 2013).

Feito este enquadramento, os objetivos desta investigação realizada na Biblioteca Municipal de Valongo (BMV) são identificar o grau de literacia digital da população sénior do concelho e propor ações formativas que promovam a sua inclusão digital, respeitando as especificidades e necessidades próprias dos idosos.

A abordagem metodológica é quantitativa e descritiva e a técnica de recolha de dados é um questionário ministrado à referida população sénior com vista a analisar a sua relação com as tecnologias digitais e o domínio das mesmas. Para o efeito recorreu-se ao Microsoft Forms, tendo sido assegurada a recolha ética dos dados fornecidos pelos inquiridos, incluindo a disponibilização de um termo de consentimento informado. Os dados foram organizados e analisados com recurso ao Microsoft Excel, permitindo o cruzamento de variáveis como a escolaridade, os hábitos de utilização tecnológica, o nível de autonomia, o interesse na formação e as perceções sobre a utilidade da literacia digital.

Os resultados dos questionários revelaram que a baixa escolaridade e a ausência de hábitos tecnológicos constituem fortes entraves à literacia digital da população inquirida. No entanto, observou-se um uso expressivo de redes sociais, com uma maioria a usar o Facebook e uma minoria o WhatsApp, sendo utilizados maioritariamente para comunicação com familiares. Muitos participantes indicaram dificuldades de navegação em portais oficiais, havendo cerca de 32% que afirma não utilizar qualquer site e sendo o do Serviço Nacional de Saúde 24 o mais procurado, ainda assim, por uma minoria de cerca de 22% dos inquiridos. Os participantes também referiram desconhecimento de práticas básicas de segurança digital, nomeadamente o uso de palavras-passe seguras. De referir ainda que, embora reconheçam a importância da formação em TIC, apenas uma minoria demonstrou disponibilidade efetiva para frequentar ações de formação. Os dados apontam para uma resistência emocional à aprendizagem digital, confirmando a necessidade de abordagens formativas mais empáticas, ajustadas aos ritmos, motivações e vivências da comunidade em estudo.

Com base nos resultados dos inquéritos, foi elaborada uma proposta de ação de formação intitulada Sénior Digital: Ativo e Seguro, adequada ao perfil da população-alvo, prática, acessível e interativa, com conteúdos orientados para as necessidades concretas da população sénior do Concelho de Valongo. A formação está estruturada em 5 módulos temáticos, visando promover a inclusão digital, incentivar a aprendizagem contínua e, simultaneamente, contribuir para a segurança e a autonomia digital da população sénior. Os conteúdos abrangem desde a utilização básica de computadores e telemóveis até à navegação segura na internet e nas redes sociais, bem como o acesso a serviços públicos online, privilegiando a experiência direta dos formandos, a repetição e o acompanhamento individual.

Concluindo, a investigação confirma que é importante que as bibliotecas municipais conheçam o perfil dos seus utilizadores para melhor os servirem, se assumam como espaços de aprendizagem contínua, fundamentais para combater a infoexclusão e fomentar a literacia digital como direito fundamental de faixas da população mais desprotegidas. Assim, o papel do PI, neste contexto, sairá reforçado enquanto agente de mudança social, com impacto direto na qualidade de vida e na cidadania ativa da população sénior.

Publicado

2026-01-13

Edição

Seção

Artigos