PONTES DIALÓGICAS ENTRE A ÉTICA INTERCULTURAL DA INFORMAÇÃO E A ÉTICA DO CUIDADO
DOI:
https://doi.org/10.34630/xiedicic.vi.6569Palabras clave:
Ética Intercultural da Informação, Ética Feminista do Cuidado, Ética do Cuidado, Ética da InformaçãoResumen
Os fenômenos informacionais contemporâneos, como a ampla circulação de desinformação, a avalanche de notícias falsas e o uso de inteligência artificial e de algoritmos com viés discriminatório no ambiente digital nos põem diariamente diante de diversos dilemas éticos. Questionamentos sobre o que é “verdade” ou o que é certo e o que é errado tornam-se parte constante de nosso cotidiano. Nesse contexto, aspectos como responsabilidade e cuidado (consigo e com o Outro) nas práticas informacionais revelam-se fundamentais.
As questões da informação na contemporaneidade exigem abordagens críticas. Buscamos, então, com este trabalho relacionar os estudos da ética da informação e da ética do cuidado, de modo a possibilitar a criação de conexões teóricas e ampliar as bases de análise no campo da ética intercultural da informação (EII).
O universo da ética da informação ocupa-se das questões morais especificamente relacionadas à informação. Temas estudados pelo campo incluem privacidade, identidade, justiça, desinformação, guerra cibernética, e sociedade de vigilância, entre outros. Estudos atuais da área também abordam impactos econômicos e políticos da informação tecnológica (Capurro, 2013). Diante dos desafios contemporâneos, Gustavo Freire (2010) destaca a necessidade de uma ética para a informação.
Nesse sentido, a ética da informação é considerada, ao mesmo tempo, uma teoria descritiva, por explorar as estruturas de poder que influenciam as atitudes e as tradições informacionais em diferentes culturas e épocas, e emancipatória, uma vez que desenvolve críticas às atitudes e tradições morais no campo da informação a nível individual e coletivos.
A ética intercultural da informação (EII), conceito proposto por Rafael Capurro, lida com questões descritivas e críticas em diferentes culturas e tempos.
Um olhar atento às diferenças entre culturas também marca a abordagem da ética do cuidado, de raízes feministas. Na definição de Joan C. Tronto (1993, p. 103, tradução nossa), o cuidado é um tipo de atividade que inclui tudo o que fazemos “para manter, continuar e consertar o nosso ‘mundo’, a fim de que possamos viver nele da melhor forma possível”. Esse mundo inclui nossos corpos e nosso ambiente, entrelaçados na teia complexa que sustenta a vida. As reflexões de Tronto sobre a natureza política do cuidado, com base neomarxista, ampliam o debate para além das fronteiras da ética e se mostram centrais a discussões políticas, jurídicas e sociais da atualidade.
Tronto (1993) propõe uma democracia do cuidado (caring democracy), que se opõe à individualização da responsabilidade característica do neoliberalismo e posiciona o cuidado como um bem comum que deve ocupar o centro da arena política.
A autora divide a atividade do cuidado em quatro fases, às quais vincula virtudes correspondentes: caring about (reconhecer a necessidade de cuidado, o que demanda a virtude da atenção); taking care of (atender à necessidade identificada, o que envolve responsabilidade); care-giving (prestar efetivamente o cuidado, o que requer competência); e care-receiving (receber o cuidado, envolvendo a responsividade da pessoa cuidada).
Para Selma Sevenhuijsen (1998), valores derivados da ética do cuidado, como atenção, responsividade e responsabilidade, contribuíram para construir uma cidadania democrática, que, por sua vez, prevê a capacidade de as pessoas distinguirem entre o bem e o mal de forma responsável e, assim, serem responsabilizadas por suas ações. Essa habilidade de julgamento se dá na interseção entre igualdade e diferença, considerando a alteridade dos sujeitos, ao reconhecer sua individualidade e diversidade, mas, ao mesmo tempo, concebendo-os como iguais. Nesse contexto, a prática da ética feminista do cuidado favoreceria a cidadania por assumir um compromisso duplo:
[...] por um lado, ela pressupõe que as pessoas reconheçam e tratem os outros como diferentes e levem em conta a visão individual do mundo e de seu lugar nele [...] enquanto, por outro lado, as necessidades e narrativas não são consideradas absolutas, mas interpretadas e julgadas em contextos específicos de ação (Sevenhuijsen, 1998, p. 15, tradução nossa).
Como vimos, esse movimento entre o igual e o diferente, o particular e o universal, o local e o global também interessa à EII. Como nos lembra Capurro (2010, n.p.), a reflexão ética “deve considerar o universal sem deixar de lado a singularidade dos modos de vida e das circunstâncias históricas e geográficas”, problematizando aspectos relacionados à justiça e à participação política e social. A EII, portanto, aborda a relação entre normas morais universalizáveis ou universalizadas e tradições morais locais, transitando entre os pontos extremos da universalização e da concretude em uma situação singular. Isso significa dizer, por exemplo, que um debate sobre o “tema da privacidade não é o mesmo em uma cultura que em outra e tem um contexto histórico e cultural específico” (Capurro, 2010, n.p.).
As fases e as virtudes provenientes da ética do cuidado podem, então, contribuir nas tarefas da ética intercultural da informação na medida que auxiliam nas percepções sobre as diferenças - e as aproximações - entre indivíduos e culturas. Além disso, tal relação tem o potencial de fortalecer as redes do tecido social diante dos problemas da informação de nosso tempo.
Os procedimentos metodológicos aplicados neste estudo têm natureza qualitativa. Trata-se de pesquisa bibliográfica. O método da pesquisa é a revisão de literatura. Tais procedimentos objetivam aproximar os debates da ética intercultural da informação e da ética do cuidado de modo a ampliar as perspectivas e abordagens dentro do campo infocomunicacional.
Como resultado, percebemos, então, a ética intercultural da informação e ética do cuidado como partes da esfera não apenas do debate filosófico ou moral, mas modos de reconhecimento da alteridade e fortalecimento do tecido social e político.
A aproximação entre as duas abordagens representa mais uma oportunidade para enfrentar os desafios informacionais da contemporaneidade.
Para concluir, defendemos que a ética intercultural da informação e a ética do cuidado são caminhos que favorecem o fortalecimento do tecido social e a percepção de que redes sociotécnicas devem estar a serviço de comunidades e dos seres que coabitam o planeta. Isso porque ampliam laços de cuidado, destacam debates sobre responsabilidade e responsabilização e propõem reflexões críticas para os dilemas de nossa época.
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