Trabalho Decente e Desenvolvimento Sustentável

Uma Análise das Estratégias Nacionais frente à Transformação Digital para o Alcance do ODS 8

Autores

  • Vinícius Léda Damasceno
  • Fabrício Ziviani
  • Ana Paula Bernardi da Silva

DOI:

https://doi.org/10.34630/xiedicic.vi.6710

Palavras-chave:

trabalho decente, desenvolvimento sustentável, transformação digital, ODS 8, estratégia

Resumo

A aceleração do processo de transformação digital tem remodelado profundamente o cenário econômico global e os mercados de trabalho, introduzindo desafios e oportunidades significativas para a promoção do desenvolvimento sustentável. Nesse contexto, o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 8 (ODS 8) da Agenda 2030 das Nações Unidas enfatiza a necessidade de fomentar o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, o emprego pleno e produtivo, e o trabalho decente para todos. Este estudo investiga o papel ambíguo da inovação tecnológica como facilitadora e, ao mesmo tempo, como desafio para a consecução do trabalho decente, por meio de uma análise comparativa de estratégias nacionais adotadas por países selecionados em resposta à transformação digital.

A partir de uma estrutura teórica interdisciplinar que integra teorias do desenvolvimento sustentável, economia do trabalho e políticas de inovação, a pesquisa analisa como países como Dinamarca, Alemanha e Coreia do Sul alinham o avanço tecnológico com políticas de inclusão no mercado de trabalho. Esses países foram selecionados com base em critérios como altos índices de Desenvolvimento Humano, níveis avançados de digitalização econômica, progresso notável nos indicadores do ODS 8 e a implementação de políticas públicas integradas que promovem a inovação sem negligenciar a proteção dos direitos trabalhistas.

A revisão da literatura realizada neste estudo revela a crescente complexidade das dinâmicas laborais na economia digital. Autores como Schwab (2016) e Brynjolfsson e McAfee (2014) descrevem a Quarta Revolução Industrial como uma etapa caracterizada pela convergência de tecnologias que borram as fronteiras entre os mundos físico, digital e biológico, gerando profundas disrupções nas estruturas tradicionais de emprego. A introdução da inteligência artificial, do aprendizado de máquina e da robótica avançada simultaneamente cria novos tipos de empregos enquanto desloca trabalhadores de funções repetitivas e de baixa qualificação (Arntz, Gregory & Zierahn, 2016).

No entanto, conforme salientado por De Stefano (2016) e Graham e Woodcock (2018), a proliferação de modelos baseados na gig economy e no trabalho via plataformas tem exacerbado a precarização do trabalho, enfraquecido proteções laborais tradicionais e aumentado a assimetria de poder entre empregadores e trabalhadores. Em resposta, a Organização Internacional do Trabalho (2019) e a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (2021) enfatizam o papel crucial das políticas públicas em direcionar a mudança tecnológica para resultados mais inclusivos. Essas políticas incluem reformas educacionais, iniciativas de aprendizagem ao longo da vida, regulamentação do mercado de trabalho e estratégias de inovação inclusiva.

O desenho metodológico do estudo baseia-se em uma abordagem qualitativo-quantitativa, combinando revisão sistemática de literatura, análise documental e estudos de caso comparativos. As fontes de dados incluem artigos científicos, relatórios de organizações internacionais como a OIT, OCDE e ONU, bem como indicadores socioeconômicos e de inovação oficiais. A pesquisa utiliza técnicas de triangulação para assegurar a validade e confiabilidade dos achados, integrando insights teóricos, evidências empíricas e análise de políticas públicas.

Os resultados demonstram que a integração bem-sucedida entre inovação tecnológica e inclusão no mercado de trabalho depende fortemente de um conjunto inter-relacionado de medidas políticas. No âmbito educacional, os países analisados priorizaram o desenvolvimento de competências digitais, pensamento crítico e criatividade em todos os níveis de ensino, com atualização curricular contínua e promoção de parcerias público-privadas para programas de qualificação profissional e requalificação.

Quanto às políticas de mercado de trabalho, o estudo revela que esses países avançaram na regulamentação do trabalho em plataformas digitais, estabelecendo padrões mínimos laborais para trabalhadores digitais, assegurando o acesso a benefícios sociais e promovendo práticas de remuneração justa. Esses marcos regulatórios são essenciais para mitigar os riscos de exploração e exclusão social associados às novas formas de emprego.

No domínio das políticas de inovação, destacam-se iniciativas voltadas para a promoção da inovação social e do empreendedorismo inclusivo. A criação de ecossistemas regionais de inovação e o apoio a startups com missões de impacto social mostram-se estratégias fundamentais para reduzir desigualdades territoriais e fomentar estruturas econômicas mais resilientes.

Ainda assim, o estudo identifica desafios persistentes que ameaçam a realização plena do ODS 8. Entre eles, destacam-se as altas taxas de rotatividade nos setores tecnologicamente intensivos, a dificuldade de atualização regulatória em ritmo compatível com a evolução tecnológica e a exclusão digital de populações vulneráveis. Esses achados reforçam a necessidade de inovação contínua nas políticas públicas e de maior cooperação internacional para assegurar que o progresso tecnológico se traduza em resultados de desenvolvimento mais equitativos e sustentáveis.

Nas considerações finais, a pesquisa enfatiza que a tecnologia não é uma força neutra. Seus impactos sobre o mercado de trabalho e o crescimento econômico são mediados por escolhas políticas, estruturas institucionais e valores sociais. O avanço da automação e da inteligência artificial exige não apenas investimentos em inovação, mas também o estabelecimento de um novo pacto social que coloque a dignidade humana e o direito ao trabalho decente no centro das agendas de desenvolvimento.

O estudo também reconhece suas limitações, especialmente quanto à dependência de dados secundários e à natureza documental da análise, recomendando-se que futuras pesquisas realizem estudos empíricos de campo e acompanhamentos longitudinais para avaliar os impactos de políticas específicas sobre a promoção do trabalho decente em contextos de transformação digital.

Em conclusão, a transformação impulsionada pelas tecnologias digitais pode tanto potencializar quanto comprometer os objetivos de crescimento econômico sustentável e trabalho decente. A trajetória futura dependerá, em grande medida, da capacidade das sociedades em desenhar e implementar políticas que antecipem os desafios, protejam os grupos vulneráveis, incentivem a inovação com responsabilidade social e assegurem que os benefícios do progresso tecnológico sejam amplamente distribuídos. As experiências analisadas neste estudo oferecem lições valiosas para a busca global pela realização do ODS 8 e evidenciam a urgência de integrar o avanço tecnológico a estratégias de desenvolvimento inclusivo e sustentável.

Publicado

2026-01-13

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Artigos