O número 3 dos Cadernos IRI acolhe o tema do Ciclo Imagens do Real Imaginado: Travessias.

O conceito de travessia é inequivocamente um conceito plural. Travessia se diz de um périplo em curso ou de um périplo concluído. E essa é distinção bastante para que o conceito absorva uma quantidade potencialmente infinita de realidades, numa linha contínua entre o ato de percorrer, atravessar, morrer, ultrapassar e o ato de chegar, nascer, ambos implicando obviamente a mudança.

Quem atravessa procura o Outro nem que que o Outro seja o outro de si mesmo. Se a noção de travessia excluir algo será, com certeza, a ideia de percurso errático. Quem atravessa ou aquilo que atravessa algo, cumpre uma deslocação que une dois pontos, ou seja que parte e chega.

Ser ou não consciente de todo o trajeto, reclamar ser o objeto ou o sujeito da travessia pode ser e é com certeza relevante. De facto, “atravessar a vida a dormir” pressupõe inércia; “fazer a travessia do deserto” implica sofrer um período de inevitável ostracismo onde nada acontecerá além do sofrimento, mas “atravessar dificuldades” deixa adivinhar a luta contra a adversidade e “atravessar ventos e marés” pressupõe lutar e conhecer.

Paira, sobre a noção de travessia, a pesantez de um corpo em locomoção, mas também a leveza de uma mudança de estado ou condição, entre a vida e a morte, entre a ignorância e o conhecimento, entre partir e chegar, entre o desconhecido e o reconhecido.

Tempo e travessia entrelaçam-se. Realidades sociopolíticas como a migração, a imposição de medidas económicas ou a ascensão social convocam repetidamente o conceito de travessia, aproveitando a polissemia dos seus distintos valores simbólicos e usando o tempo ou a duração como um dado implícito para definir o conceito como positivo, neutro ou negativo. Se a travessia se restringe a um tempo delimitado e curto, podemos esperar o seu uso eufórico, se a travessia torna implícita uma duração temporalmente indefinida ou longa, podemos prever uma demora disfórica e angustiante, se a travessia é apenas uma forma de vencer um obstáculo sem que se saiba se é um progresso ou retrocesso, a travessia reclama para si toda a relevância do ato e de algum modo autoneutraliza-se.

Espaço e travessia exploram-se sinergicamente. Atravessamos territórios e fronteiras, criando rotas e povoando espaços, somos atravessados por pensamentos, imagens e pulsões, neles projetando o devir porque em todas as travessias, a meta é o locus onde chegamos um tempo depois de partir. Assim, ao conceito de travessia associamos o percurso, mas também o terminus da própria travessia. Sempre que travessia valoriza o percurso focamo-nos no “espaço entre”, sempre que valoriza o terminus, focamo-nos no espaço-tempo limite.  

Imagens e travessias são realidades simbióticas. As imagens atravessam o passado e chegam onde os sujeitos não chegam. As imagens permitem suportar o tempo das travessias sob a forma de narrativas que justificam, memórias que alimentam ou expectativas que orientam.

Projeto e travessia meta explicam-se. Travessia pressupõe a existência ou a construção de um trilho, que oriente com segurança a marcha, mas também a opção por caminhos incertos com a vontade de os vencer dado que não o fazer não é opção. Estes trilhos podem ser cruzamentos (estradas que atravessam estradas), os caminhos podem ter limites reais ou imaginários, os locais podem ser margens (transponíveis ou intransponíveis). Com todos se relaciona a travessia.

Em sociedades remotas, a travessia pressupunha sempre purificação e conhecimento. Mais do que aos corpos, a travessia competia às almas. Nas sociedades contemporâneas, a travessia pressupõe, frequentemente, a conversão e a tradução. A informação viaja, mesmo perante o imobilismo dos corpos. A informação, que faz permanentemente travessias, semióticas e tecnológicas, atravessa meios físicos e virtuais e neles se disponibiliza, se clarifica, se transforma, se corporaliza, se adultera, se inventa.  As imagens que atravessam a nossa memória e constroem o nosso conhecimento vestem múltiplas formas e suportam a constituição de rotas neurológicas do processamento de modo distinto, envolvendo-nos na partilha virtual das suas próprias travessias.

Todo o crescimento é inevitavelmente uma travessia para a morte, toda a transmissão é uma travessia que tenta evitar a morte, toda a captação é uma travessia da realidade para a virtualidade do seu registo, toda a inovação é uma travessia para a outra margem da morte.

Estas são, pois, as possibilidades de temáticas adstritas ao tema travessias que acolheremos no número 3 dos Cadernos IRI, para o qual se anuncia aqui a chamada de artigos.

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